Por falar em..foda-se.




Não há coisa que mude, ou que acalme, ou afague. Não há solução, nem soluços pequeninos. Não há escapatórias. Apenas a urgência de vestir a armadura e postar-se de pé, orando estar realmente tão fincado no chão como se pensa estar, e assim não dar vazão a exércitos inimigos. Aí, nesse exato momento, pisco os olhos e vejo a devastação de uma ventania que já passou, e onde eu estava que não percebi? Agora não sei o que fazer com esse entulho que ficou me ocupando, impedindo de plantar novas mudas no meu jardim. 

É, percebi que estou terminando frases de maneira estranha, tentando fazer com que soe poesia. Também percebi que o máximo que estou conseguindo parecer é com uma poesia barata que foi escrita num pedaço de papel higiênico. Mas é exatamente esse o ponto: o pedaço de papel higiênico. Vai parecer drama de mulherzinha se eu disser que estou me sentindo um pedaço de papel higiênico? E não falo daqueles super macios, brancos, perfumados e folha dupla, e sim daqueles acinzentados de folha simples, que vêm enrolados em outro papel ao invés da embalagem de plástico. Não importa se pareça drama de mulherzinha: eu sou mesmo uma mulherzinha e o mundo não vive sem drama, então estou fazendo barulho à toa. Não me importa se você acha que é drama. Hoje, e apenas hoje, agora mesmo, me darei ao luxo de enfiar uma expressão feia no meio de um texto: foda-se. Um foda-se para você que acha que estou no meio de uma crise existencial, ou que tô azeda demais, ou precisando de sexo, ou o que quer que seja o seu pensamento de desdém para isso que eu chamo de direito de não estar me sentindo a gata do pedaço neste momento, por diversas razões. 

Só que... No fim das contas, esse texto/desabafo/coisa sem sentindo/liquidificação de frases aleatórias é sobre o mesmo assunto de sempre. A mesma coisa que me afeta todas as vezes, a mesma coisa que foi musa inspiradora para tantos outros desabafos literários. Não aconteceu nada, nenhum acontecimento desolador, é só que eu estou estraçalhada novamente, e veja só, pelo mesmo motivo que me esfiapou da última vez. Coisas boas sempre acontecem vez ou outra, ninguém vive cem por cento no inferninho, mas não faz diferença que elas aconteçam porque aquele velho fantasma idiota continua fazendo lanchinhos na sua cozinha.  O desgraçado já está até gordo. E você não vê como pode se livrar dele: não pode chamar a polícia ou os bombeiros e dizer que a sua casa foi invadida. Você não pode sequer pegar uma das suas facas de cortar carne para matá-lo e mandá-lo para o céu dos fantasmas gordos, porque enfim, ele já morreu mesmo. A pior parte é que ele não faz nada além de ficar comendo a sua comida favorita, sentado do seu lado, te olhando com o maior sorriso de ameba recheado de dentes, porque ele sabe que a simples presença imensa dele já faz um estrago mais pesado que a força que ele exerce sobre a terra. 

Você se vê sem saída. Eu me vejo sem saída, encurralada no canto da parede junto com todo aquele entulho da ventania do início do texto. E abrir as comportas simplesmente não está funcionando. Falar com Deus e exigir uma explicação ou uma solução rápida também não vai funcionar: eu posso falar com Ele e me lamuriar e choramingar e coisa e tal, mas eu não posso esperar ouvir aquela voz forte, retumbante e cinematográfica me indicando um caminho a seguir. Seria a confirmação da loucura, embora seja acalentador pensar que alguém te entende. Não te responde, certo, mas também não te julga. Fica ali, como o perfeito amigo que escuta tudo o que você tem a dizer, ou simplesmente a chorar, e não tem a infame ideia de ficar tentando te conformar dizendo lugares-comuns, apenas fica ali do seu lado, de alguma forma te aquecendo com o calor do corpo. De repente, acreditar que alguém zela por nós torna esse mundo cruel um pouco menos cruel. Sei lá como você se sente sobre isso, mas é assim que eu me sinto sobre isso. Na verdade, eu me sinto de muitas maneiras sobre muitos assuntos. E não é raro que eu não consiga entender o que está acontecendo. Como agora. Não, talvez eu esteja mentindo, talvez eu saiba que o problema é que eu vejo nítido na minha mente tudo o que ando desejando, mas não consigo materializar em minhas mãos.

Sabe aquele foda-se de antes? Por toda essa minha incapacidade e todo esse autoflagelo lírico, ele é para mim agora. Foda-se to myself. E viveram felizes para sempre.

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