Por falar em..SEDEX DO CÉU.




Não tenho com quem conversar, então converso comigo mesma. Quem precisa de amigo quando existe papel e caneta? Não sou solitária, mas fico mais dramática que o normal cada vez que fico de TPM.Absorvente com abas, cólica invadindo de fininho e aquele remedinho de salvação, compreende? Não leia a bula.

Às vezes,ainda escondida entre as cobertas, lembro que papai deixou algumas feridas abertas antes de ir embora. Nós não tínhamos uma relação conturbada,nem nada..mas meu pai era bem dramático quando queria. Brigávamos raramente mas  ficávamos sem nos falar por horas.Certamente mamãe concordava com ele, mas aceitava ficar ao meu lado quando eu chorava baixinho ainda escondida.

Eu costumava sumir com meus sentimentos cada vez que ficava emburrada. Era uma criança boba. Ainda sou uma criança boba, a diferença é que agora estou formada na faculdade, e caso seja mais nova, quero que saiba que isso não faz de mim uma pessoa mais madura que você. Ainda assisto desenhos animados e escolho minha escova de dentes pela cor. Tudo pela higiene bucal!

Nossa relação não era escura, papai e eu costumávamos rir assistindo um programa que transmitia casos de família em um canal de gente velha. Era cada estrupício,cada história, cada tema de ficar com o queixo caído. Abstraímos a ideia de tudo ser combinado. Se molhassem minha mão com algumas notas, eu pagaria de louca e contaria meus problemas em um canal aberto. Alguém pelo menos entenderia o que se passa em minha cabeça. Ou não, sou confusa,louca e deTPM.

Gostávamos de assistir futebol, em estádio ou no sofá, o importante era a companhia e os aperitivos. Pipoca, amendoim, cachorro-quente com duas salsichas e refrigerante de latinha. Delícia!

Quando papai ficou doente, abalou tudo: a casa, os móveis, minhas redes sociais, meu corpo, minha alma e principalmente, o “eu te amo” que há tempos não dizia.Quando entrei na puberdade e as espinhas vieram à tona, nos distanciamos bastante. Tive minha fase rebelde, minha fase patricinha pobre e principalmente, minha fase emo – creio que ela ainda existe, lá no fundo,escondidinha.

Em seu último mês de vida, disse a ele todos os “eu te amo” possíveis. O clima ficava mais lindo, mais belo, mais maravilhosamente perfeito. A vida ficava mais fácil, mais simples, mais amiga. O tempo ficava mais triste, mais companheiro e mais curto.

Talvez seja esse o motivo que faz com que eu sinta tanta saudade. Demorei muito para soltar o verbo amar e abraçá-lo como quem nunca imaginou viver sem. Felizmente,pude falar que o amava mais que golaço em final de campeonato. Ão ão ão, aqui é o Porcão!

Se eu pudesse escolher um presente para mandar ao meu pai, escolheria uma carta. Eu me desculparia por certas atitudes e diria que o amo em mais de trezentas linhas. Deveria existir um correio que chegasse até ele. Minha família e eu,seriamos uma bela clientela. "Sedex do céu, não corre, voa!", graças ao bom Deus, isso não existe. Eu sentiria mais dor na mão que cólica invadindo de fininho.

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